quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Por que Escrever e Ler Terror?

"As pessoas me perguntam por que eu escrevo coisas tão brutas. Gosto de dizer que tenho um coração de menino - está guardado num vidro em cima da minha escrivaninha." (Stephen King)


Não é fácil ler e escrever terror, ou seus subgêneros derivados. Exige, tanto do cozinheiro como do degustador, uma coragem de nível incomensurável - coragem essa, que não se restringe unicamente ao fato da capacidade intrínseca de ler algo horripilante e permanecer sereno ao longo da noite, sem ter o sono perturbado, ou tremer ao avistar a primeira sombra noturna. Para tal feito, temos que ter a coragem heroica de nos confrontarmos conosco; afinal, são medonhos e surreais os caminhos que nos conduzem a... nós.


H.P. Lovecraft, mestre clássico das narrativas de terror, afirmava veemente que "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido."


É a ousadia de nos depararmos com um lado nosso, até então desconhecido, na maioria dos casos, que é exigida tanto para quem trabalha ou aprecia o ramo - um lado obscuro, degenerado e pútrido, que, lamentavelmente, todos possuímos e, de modo infeliz, nem sempre reconhecemos.
Não é por doentio sadismo, desvio moral ou algum mal psíquico, como muitos podem imaginar que existem tantas obras de caráter horrendo e quem as consuma - claro, isso pode acontecer, em alguns casos, tendo em vista esse mundo de exceções onde a lei natural das coisas quase nunca se estabelece. Creio, enfim, que o terror, em suas diversas manifestações artísticas, dentre quais, a literatura, visa algo além de mero entretenimento excêntrico; pretende, mesmo que subjetivamente, fornecer uma espécie de auto-ajuda bizarra, por meio do conflito, a contemplação e a análise da metade negra do ser.
Essa revelação, é fato, ocorre de maneira brusca, nada suave. Todavia, se faz necessária para um despertar mais árduo, brados mais altos.


Escrevo terror, pois, é com ele que tenho a possibilidade de trabalhar o que o ser humano tem de mais vil, cruel, sujo e desprezível - assim como na fantasia, resgato toda a esperança perdida no homem durante o processo de escrita anterior, apresentando assim, o que se há de melhor. Não o faço, no entanto, como um mero pintor que esboça algo na tela a fim de somente se olhar e causar perplexidade. Lanço minhas narrativas, por mais horríveis que sejam, não para causar um desânimo generalizado, uma descrença e desesperança em relação à vida. Ao contrário, encontramos na ficção, nos monstros um exemplo - daquilo que não devemos ser. Olhemos para o mal em nós, em qualquer lugar - olhemos para o horror nas histórias e na realidade e fujamos dele!
Em muitos casos, o ser horrível da história é mero personagem secundário, quem assusta de verdade é o homem, a mulher, a criança e seus respectivos atos. É da natureza diabólica da criatura sanguinária, pilhar, matar e destruir; todavia, não é da nossa ser de tal forma. Olhando para nós mesmos através da "arte horrenda", detectamos nossos vícios e virtudes, nossos males e malefícios, nos conscientizamos deles e, assim espero, os evitamos.


O mundo é um lugar bom, no entanto, não podemos negar que ele é, concomitantemente, um  espaço triste, feio e mau. Encarar esse fato é mais indicado do que nos revestirmos de uma ilusão alienante, pois, se o fizermos, mais atitudes e valores agregaremos para transformá-lo no que deveria ser.


Que as atrocidades e maldades que permeiam a linha da realidade, permaneçam apenas no papel.

6 comentários:

  1. Uau, que texto incrível!
    Muito bom! Parabéns!
    De fato, eu gosto de ler livros de terror para ter certeza de que a verdadeira maldade ainda não está completamente espalhada pelo nossos mundo...
    E concordo com vc! Muitas vezes o "monstro" é apenas secundário, o que nos surpreende e assusta é até onde as pessoas são capazes de chegar para atingir seus objetivos.
    Beijos

    http://giselecarmona.blogspot.com/
    @giselecarmona

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  2. Ah! Que ótimo que gostou, Gisele! Agradeço por seu comentário!
    Concordo, de fato , com você sobre a maldade mundana.
    Beijos e tudo de melhor!

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  3. Para ser sincero, acho que escrever sobre terror é ainda mais desafiador que escrever comédia. E olhe que quando falo de comédia, me refiro as melhores, como as antigas peças gregas As Rãs. Escrever terror sem deixar o leitor amedrontado não é escrever terror e é ai que está a grande odisséia. Particularmente, li uma única vez na vida um livro que me deixou verdadeiramente assustado e o que mais me orgulho é que era um livro nacional que abordava a história da mula sem cabeça. Alias, o nome é: A Mula Sem Cabeça. Mas focando meu comentário mais na tal espécie de auto-ajuda bizarra de que falas... cara eu não consigo ver com clareza aonde certas histórias de terror podem nos conflitar com nossa metade negra. Claro que clássicos como Frankenstein fica evidente a manifestação artística onde o autor esboça esse lado acre, vil e obscuro do ser humano. Mas em geral não é tão simples assim. De qualquer forma, de toda esta minha opinião fraca e desnorteada, gosto de pensar que todos nós nos identificamos em parte com estes “monstros”, com este terror todo, porque faz parte de nós também. Um “nós” que se muitas vezes temos que esconder, quando o vemos num filme ou numa literatura, vemos na verdade parte de nós ali. Ademais, faço suas minhas palavras no penúltimo parágrafo do texto e acrescento que concordo com o comentário de Gisele, o texto realmente é incrível.

    umlugarescuro.site.com.br

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  4. Olá Elton.Quanto tempo!Bom estou aqui hoje para lhe convidar a prestigiar a entrevista que fiz com o escritor Evan Ribeiro da obra "Não deixe o sol brilhar em mim",não sei se você o conhece,então essa é uma oportunidade otima para conhece-lo e sua obra tbém.
    Ficaria muito feliz com sua presença amanhã.
    A partir das sete da noite estara disponivel.Conto com vc

    Beijokas e Mordidas Ana Zuky

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  5. Oi Elton não dá pra encarar um texto seu sem deixar de parabenizá-lo por ele.
    Vc escreve magnificamente bem querido.
    Seu jogo de palavras, sua sensibilidade em captar as ideias e passá-las para o papel é mesmo explêndida.
    Vc tem toda razão qndo as narrativas de terror, eu gosto muito desse gênero, até pq ele chama muito mais atenção do que qualquer outro não?
    Mas acredito que devemos sim tomar de exemplo o que ocorre na ficção para que sejamos pessoas totalmente contrárias ao que a realidade dos livros de horror nos trazem.
    E deixar que as atrocidades da ficção, permaneçam apenas no papel, sem sombra de dúvida!
    Adorei seu texto querido. Bjus

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  6. Agradeço pelos comentários - Zegur, Ana e Gilciany.
    Fico feliz que tenha gostado tanto, Gil! Suas palavras e estima são um incentivo e tanto para mim - e o fato de ser uma apreciadora do gênero, anima-me bastante.
    Um grande abraço!

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